
A França vive mais um episódio de instabilidade política. O primeiro-ministro François Bayrou enfrenta um voto de confiança na Assembleia Nacional marcado para 8 de setembro, e a oposição — que detém a maioria no Legislativo francês — já ameaça derrubá-lo. Se isso acontecer, o país vai perder o terceiro premiê em menos de um ano, um recorde de instabilidade que reforça a imagem de um país cada vez mais difícil de governar.
Bayrou convocou o voto de confiança para tentar validar seu plano de corte de gastos públicos, avaliado em 44 bilhões de euros. A proposta é vista como necessária diante do quadro fiscal francês: o déficit público do país está em 5,8% do PIB, quase o dobro do limite estabelecido pelas regras da União Europeia, e a dívida pública já ultrapassa 114% do PIB — números que colocam a França sob pressão crescente de investidores e de parceiros europeus.
O pacote de austeridade proposto por Bayrou inclui medidas duras, como a eliminação de dois feriados nacionais e a redução de benefícios sociais, pontos que a oposição classifica como inaceitáveis e que vêm sendo o principal alvo das críticas ao governo. É justamente esse pacote que deve ser colocado à prova no voto de confiança de setembro — e que pode custar o cargo ao atual premiê.
O histórico recente não ajuda Bayrou: seu antecessor, Michel Barnier, foi derrubado após apenas três meses no cargo, tornando-se o primeiro primeiro-ministro francês a ser destituído por voto parlamentar em mais de 60 anos. Caso Bayrou siga o mesmo caminho, a França vai enfrentar sua terceira troca de premiê em menos de 12 meses, um cenário raro mesmo para um país historicamente acostumado a certa rotatividade no comando do governo.
A crise política também tem um efeito colateral perigoso para o establishment francês: pesquisas recentes mostram que, em uma nova eleição legislativa, 33% dos eleitores votariam na extrema-direita da Reunião Nacional, contra apenas 15% para a coalizão centrista que governa atualmente o país. A instabilidade institucional, nesse contexto, parece fortalecer justamente o discurso da extrema-direita, que se apresenta como alternativa a um centro incapaz de resolver os impasses fiscais e políticos do país.
Para o presidente Emmanuel Macron, o momento é de dilema: sustentar Bayrou e seu pacote de austeridade pode garantir credibilidade fiscal junto aos mercados e à União Europeia, mas ao custo de mais instabilidade política interna. Já ceder às pressões da oposição pode acalmar o ambiente político no curto prazo, mas comprometeria o esforço de ajuste fiscal que a França vem tentando sustentar diante de suas contas públicas deterioradas.
O desfecho do voto de confiança de setembro deve ser acompanhado de perto não só pela França, mas por toda a União Europeia, dado o peso econômico e político do país no bloco — e o risco de que a crise francesa sirva de estopim para uma nova rodada de instabilidade política na Europa.





