Alcoolismo no Brasil: 30 milhões de pessoas bebem de forma abusiva e a maioria não sabe disso

Os números são alarmantes — e a solução raramente vem de onde as pessoas esperam. Entenda por que o alcoolismo é a doença que mais se disfarça de estilo de vida no país.

Alcoolismo no Brasil: 30 milhões de pessoas bebem de forma abusiva e a maioria não sabe disso

Existe uma pergunta simples que muita gente tem medo de responder com honestidade: eu bebo demais? Não a pergunta de fim de festa, quando todo mundo já foi embora e você ainda está de pé. A pergunta real, feita no silêncio de uma segunda-feira, quando o corpo ainda sente o fim de semana e a mente já está planejando a próxima ocasião.

No Brasil, essa pergunta precisaria ser feita por muito mais gente do que se imagina. Segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 20% da população adulta brasileira tem padrão de consumo abusivo de álcool. Isso representa, em números absolutos, cerca de 30 milhões de pessoas. Além disso, o dado mais assustador, de acordo com o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), é que três em cada quatro pessoas que bebem de forma abusiva acreditam que seu consumo é moderado.

O problema que se disfarça de cultura

O alcoolismo é, antes de tudo, um problema de percepção. Diferente de outras drogas, o álcool está presente nas celebrações, nos finais de semana e nas reuniões de família. Nesse sentido, isso cria uma barreira enorme para quem precisa reconhecer que perdeu o controle. Afinal, como algo tão aceito pode ser um problema?

A resposta está nos dados. De acordo com o Vigitel 2023, o consumo abusivo de álcool aumentou no Brasil recentemente. Portanto, subiu de 18,4% para 20,8% da população adulta. Entre os homens, o percentual chegou a 27,3%. Ou seja, mais de um em cada quatro homens adultos brasileiros bebe de forma prejudicial à saúde.

Como reconhecer o uso abusivo

A definição técnica é simples: para homens, o consumo é considerado abusivo quando ultrapassa cinco doses em uma única ocasião. Para mulheres, quatro doses já configuram abuso. Por outro lado, além dos números, existem sinais comportamentais que indicam dependência. Entre os principais estão: beber para lidar com estresse, dificuldade de parar e precisar beber cada vez mais para sentir o mesmo efeito.

Consequentemente, o problema não é só a bebida — é a dificuldade de enxergar a si mesmo com clareza quando o álcool já faz parte da rotina. Segundo o CISA, 75% dos consumidores abusivos acreditam que bebem com moderação.

O caminho da saída: o que realmente funciona

A boa notícia é que o alcoolismo tem tratamento. No entanto, ao contrário do que muitos pensam, a saída raramente passa por força de vontade isolada. A dependência química é uma doença reconhecida pela OMS e precisa de acompanhamento médico e suporte psicológico.

Em resumo, o problema é gigante e subestimado, mas a saída existe e começa com a honestidade. Se você ou alguém próximo precisa de ajuda, o CAPS AD oferece atendimento gratuito pelo SUS em todo o Brasil.

Por Fagner Rocha
@fagnerrochaaa | @portalconexaoativa
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Onde buscar ajuda

A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), estrutura do Sistema Único de Saúde voltada ao cuidado de pessoas com transtornos mentais e uso problemático de álcool e outras drogas, conta com os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) espalhados por diferentes regiões do país, oferecendo atendimento multiprofissional gratuito, que costuma incluir acompanhamento médico, psicológico e social. Além do CAPS AD, unidades básicas de saúde também podem servir como primeira porta de entrada para quem busca orientação sobre o próprio consumo de álcool ou o de um familiar.

Grupos de apoio baseados no modelo de mútua ajuda, como os Alcoólicos Anônimos, também são amplamente reconhecidos por profissionais de saúde como um complemento importante ao tratamento clínico, oferecendo um espaço de acolhimento entre pessoas que compartilham experiências semelhantes. Segundo especialistas em dependência química, a combinação entre acompanhamento profissional e rede de apoio social costuma aumentar significativamente as chances de manutenção da sobriedade a longo prazo, especialmente nos primeiros meses após a decisão de buscar tratamento, considerados os mais críticos do processo de recuperação.

Familiares também costumam desempenhar papel importante nesse processo, já que o apoio do círculo próximo influencia diretamente a adesão ao tratamento. Especialistas recomendam que familiares de pessoas em recuperação também busquem orientação profissional, já que lidar com essa realidade sozinho costuma gerar desgaste emocional significativo para todos os envolvidos.

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