Haddad propõe banco de desenvolvimento para reindustrializar São Paulo, apoiado na reforma tributária

A corrida ao governo de São Paulo, que será decidida nas urnas em outubro de 2026, já entrou de vez na pauta econômica. O ex-ministro da Fazenda e pré-candidato Fernando Haddad (PT) propôs, durante um evento de campanha no Grande ABC, transformar a Desenvolve SP em um banco de desenvolvimento robusto, capaz de financiar a expansão e a instalação de novas indústrias no estado — uma proposta que ele conecta diretamente à reforma tributária aprovada durante sua gestão no Ministério da Fazenda, e que classifica como o principal ativo de São Paulo na disputa por investimentos nos próximos anos.

A proposta do banco de desenvolvimento

Segundo Haddad, transformar a Desenvolve SP — atualmente uma agência de fomento com escopo mais limitado — em um banco de desenvolvimento pleno permitiria ao estado financiar diretamente projetos de expansão e instalação industrial em maior escala, com linhas de crédito mais competitivas do que as hoje disponíveis. A proposta foi apresentada em Mauá, no Grande ABC paulista, região historicamente ligada à indústria automobilística e metalúrgica, que vive momento de reinvenção produtiva diante da desindustrialização relativa observada nas últimas décadas.

O pré-candidato do PT argumenta que esse tipo de instituição seria essencial para promover a reindustrialização de São Paulo, criando novas oportunidades de emprego e fortalecendo a economia local em um momento em que o estado disputa investimentos com unidades federativas que historicamente ofereceram incentivos fiscais agressivos para atrair fábricas e centros de distribuição.

A conexão com a reforma tributária

O ponto central do discurso de Haddad é a tese de que a reforma tributária aprovada em seu período à frente do Ministério da Fazenda muda a lógica competitiva entre os estados brasileiros. Segundo ele, ao simplificar o sistema de impostos sobre consumo e reduzir as distorções que alimentavam a chamada “guerra fiscal” — a disputa entre estados por meio de isenções e benefícios tributários para atrair empresas —, a reforma abre espaço para que São Paulo volte a ocupar posição central na atração de investimentos, já que deixa de competir apenas por renúncia fiscal e passa a competir por infraestrutura, mão de obra qualificada e ambiente de negócios.

Essa leitura contrasta com a de adversários políticos: o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que disputa a reeleição, nega que o estado tenha abusado de isenções fiscais e defende um modelo de gestão fiscal diferente, com foco em privatizações e renegociação de contratos como estratégia de atração de capital privado — Tarcísio inclusive já sinalizou interesse em renegociar contratos de privatizações em curso, tema que também deve entrar na disputa eleitoral de outubro.

Foto: JonysLowe / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Grande ABC como palco simbólico da disputa industrial

A escolha de Mauá para o anúncio não foi por acaso. O Grande ABC — que reúne municípios como Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema e Mauá — é historicamente o coração da indústria automobilística paulista, região que sentiu de forma mais aguda o processo de desconcentração industrial das últimas décadas, com fábricas migrando para outros estados em busca de incentivos fiscais e custos operacionais menores.

Reposicionar essa região como prioridade de política industrial tem forte apelo simbólico para qualquer candidato ao governo paulista, já que a “reindustrialização do ABC” é pauta recorrente há décadas na política estadual, associada tanto a promessas de campanha quanto a resultados concretos de geração de emprego que costumam ser cobrados de perto pelos sindicatos e movimentos sociais historicamente fortes na região.

Foto: Gagomon / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

O pano de fundo: corte de gastos e disputa por Selic mais baixa

A proposta de Haddad também precisa ser lida em conjunto com o cenário macroeconômico mais amplo de 2026: o Ibovespa vem operando perto dos 178 mil pontos após o Banco Central iniciar um ciclo de corte da Selic, movimento que tende a baratear o crédito e facilitar justamente esse tipo de proposta de financiamento estatal para expansão industrial. Um ambiente de juros mais baixos favorece tanto a capacidade de um banco de desenvolvimento estadual captar recursos em condições vantajosas quanto o apetite de empresas por linhas de financiamento de médio e longo prazo — o tipo de crédito que costuma viabilizar projetos de instalação ou expansão fabril.

Ao mesmo tempo, o debate público em São Paulo segue perpassado pela discussão fiscal mais ampla: o governo interino do Rio de Janeiro, por exemplo, já projeta corte de R$ 5 bilhões em despesas até o fim do ano, uma pressão fiscal que também ronda outros estados e que torna a proposta de um banco de desenvolvimento paulista uma aposta relativamente ousada em um momento de contenção geral de gastos públicos no país.

Como funcionam bancos de desenvolvimento estaduais no Brasil

A proposta de Haddad não é inédita no cenário brasileiro. Estados como Minas Gerais, Paraná e Bahia mantêm instituições de fomento com desenho semelhante ao que o pré-candidato descreve para a Desenvolve SP, oferecendo linhas de crédito subsidiado ou com juros mais baixos que o mercado privado para empresas que se instalam ou expandem operação dentro do território estadual. O modelo costuma funcionar como complemento — não substituto — ao sistema de crédito privado, mirando especificamente projetos que bancos comerciais tradicionais consideram de maior risco ou de retorno mais lento, como plantas industriais novas em regiões menos consolidadas economicamente.

A diferença que Haddad tenta destacar em sua proposta é a escala: São Paulo, por ser o maior PIB estadual do país, teria musculatura financeira para estruturar um banco de desenvolvimento mais robusto do que os equivalentes de outros estados, desde que consiga aprovação do Legislativo estadual e estruturação adequada de capital — processo que, historicamente, costuma levar mais de um mandato para amadurecer, o que torna a proposta mais um posicionamento de campanha de médio prazo do que uma promessa de entrega imediata caso ele seja eleito.

O que esperar da campanha até outubro

Com a eleição para o governo de São Paulo marcada, o debate econômico deve se intensificar nas próximas semanas, com Haddad apostando na tese de reindustrialização financiada por banco de desenvolvimento estadual e Tarcísio defendendo seu histórico de gestão fiscal e parcerias com o setor privado via privatizações. Para o empresário e o investidor que acompanham o estado mais rico do país, a corrida eleitoral de 2026 carrega implicações diretas sobre o ambiente de negócios dos próximos quatro anos — seja pela manutenção do modelo atual de gestão fiscal, seja pela guinada para um papel mais ativo do estado como financiador direto da indústria, como propõe o candidato petista.

Nos próximos meses, o mercado deve acompanhar de perto tanto o detalhamento técnico da proposta de Haddad para a Desenvolve SP — fontes de capitalização, governança, público-alvo prioritário — quanto a reação do governo Tarcísio, que tende a usar os números de atração de investimentos da atual gestão como contraponto direto à narrativa de reindustrialização apresentada pelo adversário. Analistas de mercado costumam tratar esse tipo de proposta com cautela até que venha acompanhada de projeto de lei formal e estudo de viabilidade financeira detalhado, já que anúncios de campanha nem sempre se traduzem em política efetiva após a posse — um ceticismo saudável que tende a acompanhar o debate paulista até pelo menos o segundo turno, caso a disputa chegue a essa fase em outubro.

Vale notar ainda que a proposta chega em um momento em que o Congresso Nacional reserva duas semanas de esforço concentrado antes que a campanha eleitoral tome o ritmo dos trabalhos legislativos — o que pode tanto acelerar quanto travar pautas econômicas de interesse estadual que dependem de articulação com Brasília, a depender de como se configurar a relação entre o próximo governo paulista e o Congresso a partir de 2027.

Fontes: Times Brasil/CNBC, Brasil 247, EncontraMauá.com, Mais Retorno. Apuração realizada em 30/08/2026.

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