PF mira rede de postos que movimentou R$ 7,6 bi em nova fase da Operação Unha e Carne

A Polícia Federal deflagrou nesta semana a sexta fase da Operação Unha e Carne, mirando uma organização suspeita de usar uma rede de postos de combustível na Região Metropolitana do Rio como plataforma de lavagem de dinheiro, com participação de agentes públicos.

PF mira rede de postos que movimentou R$ 7,6 bi em nova fase da Operação Unha e Carne

O que apurou o portal

Foram cumpridos 19 mandados de busca e apreensão em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Resende e na capital fluminense. Segundo as investigações, o esquema teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos — um dos maiores valores já identificados em operações desse tipo no estado. Um dos alvos identificados é o empresário Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil, que foi levado à sede da Superintendência da Polícia Federal, no centro do Rio, para prestar esclarecimentos. Também consta entre os investigados o ex-secretário da Polícia Civil do Rio, Marcus Amim.

De acordo com a PF, o grupo é suspeito de usar empresas do setor de combustíveis para dar aparência de legalidade a recursos de origem ilícita, num esquema que combinaria emissão de notas fiscais frias, movimentação bancária pulverizada entre laranjas e participação de servidores públicos que teriam facilitado a operação da rede. Além dos mandados de busca e apreensão, a Justiça determinou o bloqueio de bens e a suspensão das atividades econômicas de empresas ligadas ao grupo investigado.

Uma segunda frente de investigação

Em ação distinta, o Ministério Público do Rio investiga, na Operação Hidra de Lerna, suspeitas de corrupção em licenciamentos ambientais concedidos pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), com 14 servidores sob investigação. Segundo o MPRJ, a apuração mira a emissão de licenças e autorizações ambientais entre 2024 e 2025 com pareceres técnicos em desacordo com as exigências legais, favorecendo empreendimentos de alto impacto ambiental — em alguns casos, com dispensa da elaboração de Estudo de Impacto Ambiental (EIA/Rima), apesar de questionamentos levantados pelos próprios setores técnicos do Inea e também pelo Ibama.

Entre os alvos da operação estão o ex-presidente do Inea, Renato Jordão Bussiere, o ex-vice-presidente José Dias da Silva, e o atual presidente da Comissão Estadual de Controle Ambiental (Ceca) e servidor efetivo do Inea, Maurício Couto Cesar Junior, que teve o afastamento preventivo do cargo determinado pela Justiça a pedido do Gaesf, grupo especializado do MPRJ que atua em crimes contra o meio ambiente. O nome da operação faz referência à Hidra de Lerna, criatura da mitologia grega com múltiplas cabeças que voltavam a crescer quando cortadas — numa alusão, segundo o Ministério Público, à amplitude e à ramificação do esquema de corrupção identificado dentro do órgão ambiental.

Por que o caso tem repercussão além do Rio

O volume de recursos envolvido e a participação de agentes públicos em ambas as investigações reacendem o debate sobre fiscalização e integridade na administração pública — tema que deve seguir em pauta enquanto as apurações avançam. Operações como a Unha e Carne, que já soma seis fases, e a Hidra de Lerna reforçam um padrão observado nos últimos anos no Rio de Janeiro: o uso de setores regulados, como combustíveis e licenciamento ambiental, como fachada para esquemas de lavagem de dinheiro e tráfico de influência envolvendo agentes do próprio Estado, o que amplia o desafio para órgãos de controle e para a própria sociedade civil na fiscalização desses setores.

Operações de busca e apreensão como as cumpridas nesta fase da Unha e Carne fazem parte da fase investigativa de um processo penal, anterior a qualquer eventual denúncia formal pelo Ministério Público. É apenas depois da análise do material apreendido — documentos, dispositivos eletrônicos e registros financeiros — que a Justiça avalia se há elementos suficientes para levar os investigados a julgamento.

O bloqueio de bens e a suspensão de atividades econômicas de empresas ligadas a investigações em curso são medidas cautelares, determinadas pela Justiça para evitar a dissipação de patrimônio ou a continuidade de eventuais irregularidades enquanto a apuração segue em andamento, sem que isso represente, por si só, uma condenação dos envolvidos.

Operações que já somam múltiplas fases, como é o caso da Unha e Carne, refletem investigações de longo prazo, em que novos elementos levam à expedição de mandados adicionais à medida que a apuração avança, um padrão comum em casos que envolvem estruturas empresariais complexas e múltiplos agentes públicos e privados.

Se você tem interesse em entender melhor o setor de combustíveis e o mercado automotivo por trás desse tipo de operação, veja também o conteúdo especializado do Manual dos Carros.

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