Jovem é morta a tiros pelo ex-companheiro em Maricá em caso de feminicídio

Na manhã desta quinta-feira, a rotina de uma família em Maricá foi destruída por um ato extremo de violência de gênero. Nathalia da Silva Figueiredo, que se preparava para sair da casa dos pais para trabalhar, foi surpreendida pelo ex-companheiro, Alexander Neves, de 56 anos, que efetuou diversos disparos contra ela. A cena ocorreu na rua João Ricardo dos Santos Oliveira, no bairro Flamengo, e chocou vizinhos que ouviram os tiros e testemunharam a movimentação de socorro e polícia.

Após atacar Nathalia, Alexander voltou a arma contra si mesmo e também disparou, numa tentativa de tirar a própria vida. O pai da vítima acionou imediatamente a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros, numa corrida desesperada por ajuda. Ambos foram socorridos e levados ao Hospital Municipal Dr. Ernesto Che Guevara. Nathalia, porém, chegou à unidade já sem vida. Alexander recebeu atendimento médico, mas não resistiu aos ferimentos, morrendo pouco depois.

O histórico de Alexander ajuda a contextualizar o risco que Nathalia enfrentava. Informações da Polícia Civil indicam que ele possuía anotações criminais antigas, incluindo dois casos de lesão corporal registrados em 1993, além de ocorrências de posse de drogas e estelionato. Ou seja, não se tratava de um cidadão sem antecedentes, mas de alguém que já havia se envolvido com práticas violentas e ilícitas. Vizinhos relatam que, após a separação, Nathalia teria saído da casa onde vivia com Alexander e voltado a morar com os pais no bairro Flamengo, sinalizando uma tentativa de recomeço e proteção.

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que, entre janeiro e maio deste ano, Maricá havia registrado um caso de feminicídio. Com a morte de Nathalia, o município passa a contabilizar o segundo feminicídio em 2026, num intervalo de poucos meses. O caso agora será investigado pela Polícia Civil, que deverá apurar detalhes da relação, antecedentes de ameaças, eventual registro de medidas protetivas e falhas na rede de apoio à vítima.

Mais do que um número em estatística, a morte de Nathalia escancara um padrão triste e repetitivo: mulheres que tentam romper ciclos de violência acabam sendo perseguidas e assassinadas por ex-companheiros que não aceitam o fim do relacionamento. Em todo o Brasil, e de forma ainda mais intensa no estado do Rio de Janeiro, a violência contra a mulher se manifesta em agressões físicas, psicológicas, ameaças e, nos casos extremos, em feminicídios como este.

É preciso uma crítica social contundente: a sociedade brasileira naturalizou por muito tempo o controle masculino sobre a vida das mulheres, e o resultado é um cenário em que cada vez mais elas morrem por não serem vistas como sujeitos plenos de direitos, mas como propriedade. Medidas legais como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio são avanços importantes, mas não bastam se não houver estrutura de acolhimento, resposta rápida às denúncias, campanhas efetivas de conscientização e responsabilização real dos agressores.

Casos como o de Nathalia deveriam servir como ponto de inflexão. A cada mulher assassinada, o Brasil reafirma que está falhando na proteção de quem mais precisa. Enquanto não houver investimento massivo em políticas públicas de combate à violência contra a mulher, em educação de base para desconstruir comportamentos machistas e em uma rede de apoio que funcione na prática, continuaremos a noticiar mortes que poderiam ter sido evitadas. E, no Rio de Janeiro, esse padrão é ainda mais cruel, refletindo um estado que convive diariamente com a banalização da violência em todas as suas formas, inclusive dentro de casa.

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