Facção ameaça técnicos de internet e restringe acesso na Região Oceânica de Niterói

Uma provedora de internet que atua na Região Oceânica de Niterói denunciou que técnicos da empresa têm sido impedidos de realizar instalações e manutenções em bairros como Engenho do Mato, Maravista e Parque Rural.

O que apurou o portal

Segundo a Leste Telecom, integrantes de uma organização criminosa estariam por trás das restrições, favorecendo um provedor ligado ao grupo que domina o território. A empresa informou aos clientes que as intimidações ocorrem desde o fim do ano passado e alertou para o risco de interrupção do serviço caso as equipes continuem impedidas de acessar determinados locais.

Um dos episódios mais recentes envolveu um técnico abordado por dois homens em uma motocicleta na Avenida Augusto Ferreira Ramos, que teriam afirmado que a empresa estava proibida de prestar serviço na região por determinação da facção. Diante da repercussão, a Polícia Militar informou que reforçou o patrulhamento na área.

Investigação em andamento

O caso é investigado pela Polícia Civil, por meio da 81ª Delegacia de Polícia (Itaipu), responsável pela circunscrição da Região Oceânica. Moradores da região afetada podem ficar sem previsão de reparo em caso de falhas na rede, já que as equipes técnicas relatam dificuldade de acesso a alguns condomínios e ruas específicas.

Não é a primeira vez

Casos de intimidação a técnicos de telecomunicações na Região Oceânica não são novidade. Já em 2022, a Leste Telecom havia denunciado publicamente uma sequência de episódios semelhantes: em dezembro daquele ano, criminosos teriam abordado equipes em campo, e em janeiro seguinte uma central técnica da operadora chegou a ser atacada com coquetéis molotov. Em março de 2022, um novo caso de intimidação armada contra técnicos foi registrado no bairro de Maravista, levando a empresa a alertar publicamente, em nota nas redes sociais, que a região corria o risco de se tornar um conjunto de “ilhas” digitais isoladas, com bairros inteiros sem manutenção regular de rede.

Esse padrão de recorrência é apontado por especialistas do setor como um dos maiores entraves à expansão da banda larga em áreas urbanas do Rio de Janeiro dominadas por grupos criminosos. A prática, conhecida informalmente como “internet do tráfico” ou “gatonet”, consiste na imposição de provedores irregulares ligados a organizações criminosas, que cobram das famílias moradoras e impedem a concorrência de empresas licenciadas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) de atuar no território sob ameaça.

Setor de telecomunicações cobra resposta

A Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint), entidade que representa provedores regionais em todo o país, já se manifestou em outras ocasiões sobre episódios de violência contra profissionais do setor em áreas de conflito armado no estado do Rio de Janeiro, defendendo a livre concorrência entre operadoras e cobrando garantias de segurança para os trabalhadores que atuam em campo, muitas vezes sozinhos e sem qualquer tipo de escolta.

O que fazer se você é cliente afetado

A orientação da própria operadora é acompanhar comunicados oficiais e registrar boletim de ocorrência em caso de constatação de extorsão ou impedimento direto de acesso a serviços essenciais. Consumidores também podem formalizar reclamações à Anatel, que fiscaliza a prestação de serviços de telecomunicações e pode notificar as prestadoras sobre falhas de continuidade decorrentes de impedimento de acesso técnico.

Quer entender como funciona esse tipo de dinâmica de território e mercado paralelo em serviços essenciais no Rio? Veja também nosso conteúdo sobre alternativas de renda e trabalho para quem enfrenta instabilidade no dia a dia.

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