
Moradores de bairros de Niterói foram às ruas nesta sexta-feira (31) para protestar contra a demora no restabelecimento de energia elétrica, dias depois de a forte ventania que atingiu o Rio de Janeiro na tarde de quarta-feira (29) derrubar postes, árvores e fiação em diversos pontos da cidade. Os atos se somaram a manifestações semelhantes em São Gonçalo e Maricá, num quadro que já dura mais de 48 horas em algumas áreas.
Em Niterói, os protestos mais intensos ocorreram nos bairros do Caramujo, São Francisco, Atalaia e Maceió. Segundo relatos de moradores, um dos primeiros bloqueios do dia começou por volta das 11h no Atalaia, quando moradores cansados da falta de resposta da concessionária interromperam o trânsito local. A via só foi liberada às 11h55, depois de tratativas entre manifestantes e equipes de segurança. Na noite anterior, por volta das 18h30, um novo protesto já havia tomado as ruas do Caramujo, um dos bairros mais populosos da cidade.
Enel tem veículos cercados em Maricá
A situação também escalou em Maricá, onde equipes da Enel tiveram veículos cercados e impedidos de circular por moradores revoltados com a demora no atendimento. Segundo relatos colhidos na região, muitos moradores afirmam que as equipes da concessionária “ainda não haviam chegado ao local” horas depois de os primeiros chamados terem sido registrados, o que alimentou a indignação e motivou os bloqueios.
De acordo com dados apurados nesta sexta-feira, cerca de 7,8 mil clientes da Enel seguiam sem energia na região metropolitana 40 horas depois da ventania, sendo aproximadamente 2 mil só nos municípios de Niterói e Maricá. Já na área de concessão da Light, que atende principalmente a capital fluminense e parte da Região Metropolitana, o número de imóveis afetados ultrapassava 105 mil na manhã desta sexta-feira, evidenciando a dimensão do estrago causado pelo temporal.
Os transtornos relatados por moradores de Niterói vão muito além do simples desconforto de ficar sem luz. Famílias reclamam de perda de alimentos armazenados em geladeiras e freezers, interrupção no abastecimento de água — já que muitos prédios dependem de bombas elétricas para levar água às caixas d’água — e prejuízos a pequenos comerciantes que dependem de energia para funcionar, como padarias, açougues e farmácias.
Enel diz que segue trabalhando para normalizar o serviço
Procurada, a Enel informou por meio de nota que “segue trabalhando para normalizar o fornecimento” nas áreas atingidas pela ventania, sem detalhar um prazo específico para o restabelecimento total do serviço em Niterói, São Gonçalo e Maricá. A concessionária afirma manter equipes extras mobilizadas na região desde o início da semana, mas moradores relatam dificuldade em obter informações precisas sobre a previsão de retorno da energia em seus bairros.
A insatisfação da população também é alimentada pela falta de comunicação clara por parte da concessionária. Muitos moradores afirmam ter aberto múltiplos chamados sem receber retorno, e reclamam da ausência de um canal de atendimento que informe, bairro a bairro, quando o serviço deve ser normalizado. Essa lacuna de informação tem sido apontada como um dos principais motivos para a escalada dos protestos, que passaram de reclamações pontuais a bloqueios coordenados de vias públicas.
O caso de Niterói, São Gonçalo e Maricá é parte de um problema mais amplo que atinge todo o estado do Rio de Janeiro. A ventania de quarta-feira, com rajadas que superaram 100 km/h em alguns pontos, provocou um apagão que, no auge, chegou a afetar cerca de 500 mil imóveis simultaneamente, segundo balanços das concessionárias. Passados dois dias, ainda que o número total de unidades sem luz tenha caído de forma significativa, a reconstituição da rede elétrica segue de forma desigual entre os municípios, e bairros como os citados em Niterói permanecem entre os mais castigados.
O temporal que atingiu o estado na quarta-feira registrou rajadas de vento que superaram os 100 km/h em diversos pontos da região metropolitana, com o maior índice, de 105,5 km/h, medido no Aeroporto Internacional do Galeão. Ao todo, foram contabilizadas 291 ocorrências relacionadas aos ventos em todo o Rio de Janeiro, e duas mortes já foram confirmadas em decorrência do temporal, entre elas uma vítima de queda de muro no bairro de Santa Teresa, na capital fluminense — um retrato da força do fenômeno que atingiu também Niterói, São Gonçalo e Maricá.
Diante da repercussão dos protestos e da demora nos reparos em diferentes municípios do estado, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) passou a acompanhar de perto a atuação das concessionárias na região metropolitana, cobrando diretamente das empresas um cronograma mais claro de restabelecimento do serviço. A expectativa de moradores de Niterói é que essa fiscalização mais próxima do órgão regulador federal acelere a normalização do fornecimento nos bairros ainda afetados, reduzindo o intervalo de mais de 40 horas sem energia enfrentado por parte da população desde a passagem da ventania.
Moradores afirmam que pretendem manter a pressão sobre a concessionária até que o fornecimento seja normalizado em toda a cidade. Lideranças comunitárias cobram, além do religamento da energia, um plano de contingência permanente para situações de temporais mais intensos, cada vez mais frequentes na região metropolitana do Rio de Janeiro.





