Brasil atinge maior IDH da história e Lula tenta transformar dado em trunfo na eleição de 2026

Relatório da ONU coloca o país pela primeira vez no grupo de desenvolvimento humano “muito alto”, enquanto o presidente busca vincular o resultado às políticas sociais de seu governo em pleno cenário de pré-campanha.

Bandeiras de países em frente ao escritório da ONU em Genebra, simbolizando a unidade global

Pela primeira vez na história, o Brasil entrou oficialmente no grupo de países com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado muito alto pela ONU, resultado de um relatório divulgado nesta semana pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O avanço ocorre em um momento em que o presidente Lula tenta consolidar seu discurso de retomada social e econômica às vésperas da eleição presidencial de 2026, na qual aparece como candidato competitivo em cenários de segundo turno.

Em números, o Brasil atingiu índice de 0,805, referente a dados de 2024 e o melhor patamar já registrado na série histórica do indicador, o que garantiu ao país o ingresso no grupo de “muito alto desenvolvimento humano” — categoria que reúne as nações mais bem avaliadas pela metodologia da ONU. Com o resultado, o Brasil subiu cinco posições no ranking global, passando do 87º para o 82º lugar entre os 193 países avaliados. A expectativa de vida média nacional também avançou, chegando a 77,4 anos. Um dado, porém, ilustra que o avanço não elimina as desigualdades internas: quando o índice é ajustado pela desigualdade, o IDH brasileiro cai de 0,805 para 0,641, evidenciando que parcela significativa da população ainda vive distante da média nacional.

Segundo o PNUD, foram determinantes para o salto brasileiro fatores como a recuperação do mercado de trabalho, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) após a fase mais aguda da pandemia e a ampliação do programa Bolsa Família. Esses elementos contribuíram para melhoras simultâneas em renda, educação e longevidade, os três pilares que compõem o IDH. Na comunicação oficial, o governo destaca que políticas de transferência de renda e investimentos em saúde pública teriam sido decisivas para o desempenho.

Lula não perde a oportunidade de associar o novo patamar do IDH às suas escolhas de governo, em especial no campo social, e à narrativa de reconstrução após anos de crise econômica e instabilidade política. Em discursos recentes, integrantes do Planalto passaram a usar a expressão “IDH muito alto” como um selo de qualidade da gestão, numa tentativa de dialogar tanto com a população de baixa renda quanto com setores da classe média que valorizam indicadores internacionais.

Do ponto de vista eleitoral, o dado chega em um cenário acirrado. Pesquisa Datafolha divulgada em maio mostra o presidente com 47% das intenções de voto contra 43% do senador Flávio Bolsonaro em um hipotético segundo turno da eleição de 2026, dentro da margem de erro. O levantamento indica um país dividido e reforça a importância de resultados concretos na economia e na área social para a construção da narrativa de campanha.

Especialistas em política avaliam que o IDH recorde pode ser um ativo relevante, mas não necessariamente decisivo. Em eleições polarizadas, o voto tende a ser influenciado não apenas por indicadores macroeconômicos, mas também por percepções sobre segurança pública, corrupção, costumes e qualidade de serviços do dia a dia, como transporte e saúde. Ainda assim, ter um cartão de visita positivo no cenário internacional ajuda a reforçar a imagem de responsabilidade e estabilidade, argumento que o governo deve explorar ao máximo.

Ao mesmo tempo, a oposição já se mobiliza para relativizar o peso do índice, argumentando que o cidadão comum ainda enfrenta desafios concretos, como inflação em itens essenciais e dificuldade de acesso a serviços públicos de qualidade. A disputa por narrativas em torno dos números, portanto, deve se intensificar nos próximos meses, à medida que o calendário eleitoral de 2026 se aproxima e a campanha ganha contornos mais definidos.

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