Paulo Guedes critica gasto público e aponta salto da dívida bruta para 79,2% do PIB

O ex-ministro da Economia Paulo Guedes voltou a criticar a condução da política fiscal do governo atual, classificando-a como “fiscal pandêmico sem pandemia” — uma referência direta ao nível de gasto público mantido mesmo sem o contexto emergencial que justificou a expansão fiscal durante a pandemia. Segundo Guedes, “esse governo já gastou mais do que gastamos, e temos um fiscal pandêmico sem pandemia”.

O dado central da crítica

Segundo Guedes, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) saiu de 71,7% do PIB ao fim de seu mandato, em 2022, para 79,2% em fevereiro de 2026 — um avanço expressivo em pouco mais de três anos, sem crise de magnitude comparável à pandemia no período.

O que dizem os números oficiais do Banco Central

O dado citado por Guedes é confirmado pelas próprias estatísticas fiscais divulgadas pelo Banco Central: em fevereiro de 2026, a DBGG atingiu R$ 10,2 trilhões, equivalentes a 79,2% do PIB, alta de 0,5 ponto percentual em relação ao mês anterior. Segundo o BC, o avanço no período foi puxado principalmente pelo efeito da apropriação de juros nominais (+0,7 p.p.) e pela emissão líquida de dívida (+0,1 p.p.), parcialmente compensado pela valorização cambial (-0,1 p.p.) e pela variação do PIB nominal (-0,3 p.p.). No mesmo mês, as contas públicas registraram déficit primário de R$ 16,4 bilhões. Dados subsequentes mostram que a trajetória de alta continuou: em março de 2026, a dívida bruta já batia 80,1% do PIB, segundo novo levantamento do Banco Central.

O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) para 2027 projeta que a dívida pública deve permanecer em patamar elevado nos próximos anos, com pico estimado em 2029, quando a DBGG chegaria a 87,8% do PIB — uma trajetória que reforça o alerta feito por Guedes sobre a sustentabilidade fiscal de médio prazo.

Análises técnicas do Ipea apontam que a deterioração fiscal observada desde 2025 está ligada à expansão do déficit primário — que passou de 0,36% para 0,48% do PIB —, puxada por despesas primárias crescendo em ritmo superior ao das receitas, aumento das transferências por repartição de receitas e elevação do custo médio da dívida em razão do ciclo de alta da taxa Selic, além de uma mudança na composição da dívida com maior peso de títulos pós-fixados e indexados à inflação. As projeções sobre o teto da trajetória de endividamento ainda divergem entre instituições: enquanto o PLDO estimava pico de 84,2% do PIB em 2028, relatórios de projeções fiscais mais recentes apontam cenário mais desafiador, com a dívida podendo chegar a quase 89% do PIB no fim da década, com estabilização prevista pelo mercado apenas por volta de 2034.

A discussão sobre a real gravidade da trajetória de endividamento passa, portanto, por qual cenário de projeção se considera mais realista, mas o diagnóstico de que a dívida bruta voltou a subir de forma consistente desde 2023 é praticamente consensual entre os analistas.

Arrecadação recorde: o outro lado do argumento

O ex-ministro também comentou que a arrecadação recorde registrada no período sinaliza, em sua leitura, crescimento sustentável da economia — ponto que costuma dividir opinião entre economistas, já que parte da arrecadação pode refletir também aumento de carga tributária, não apenas atividade econômica aquecida.

Sem intenção eleitoral

Apesar da repercussão de suas críticas, Guedes reafirmou que não pretende disputar cargo eletivo, mantendo sua atuação restrita ao debate público sobre política econômica.

Por que esse número importa no seu dia a dia

Trajetória de dívida bruta em alta tende a pressionar os juros de mercado, com reflexo direto no custo de crédito — financiamento habitacional, crédito para empresas, cartão de crédito. É esse o motivo pelo qual um indicador aparentemente técnico chega até o bolso de quem não acompanha economia de perto: quanto maior a percepção de risco fiscal, maior tende a ser o prêmio de juros cobrado em qualquer operação de crédito no país, do financiamento de um imóvel ao parcelamento no cartão.

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